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Morre Chico Anysio, um mestre do humor brasileiro
Data Publicação:23/03/2012
 
RIO - Duzentos personagens, oito filhos, seis mulheres, várias declarações polêmicas, muita vontade de ajudar quem sempre viveu do humor, alguns desafetos no percurso, mas também gerações influenciadas por ele e um país de admiradores ao longo de 65 anos de carreira. Chico Anysio se vangloriava de ser nordestino, daqueles que não fogem à luta. E foi assim até o fim. Maior humorista da TV brasileira, ele não se rendeu facilmente e, nos últimos três meses, travou um batalha pela vida, mas não resistiu. Chico morreu nesta sexta-feira, aos 80 anos, no Hospital Samaritano, em Botafogo, no Rio. O prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o governador do estado, Sérgio Cabral, decretaram luto oficial de três dias em todo o Rio de Janeiro. Segundo o advogado da família, Paulo César Pinto, o velório será realizado neste sábado no Teatro Municipal, no Rio. O corpo será cremado neste domingo, no cemitério do Caju, ainda sem previsão de horário.
 

— Não tenho medo de morrer. Só acho uma pena, quando ainda tenho tanta coisa a fazer, para ver, tanto filho para ajudar, tanto neto. Mas não posso lutar contra o inevitável — disse Chico ao GLOBO em maio de 2011.

Chico Anysio sofreu duas paradas cardiacas nesta sexta-feira e faleceu às 14h52min, por conta de falência múltipla dos órgãos decorrente de choque séptico causado por infecção pulmonar. O comediante foi internado no Hospital Samaritano, no dia 22 de dezembro de 2011, com hemorragia digestiva. Chegou a melhorar, mas teve várias complicações respiratórias e sofreu mais uma infecção pulmonar aguda nesta semana. Na quinta-feira, passou por um processo cirúrgico para drenagem de grande hematona na pleura, a membrana que envolve os pulmões. Durante grande parte da vida ele teve enfisema pulmonar, causada pelo uso excessivo do cigarro.

No início de março, o quadro clínico de Chico chegou a dar esperanças à família. Em sua página no Twitter, a mulher do humorista, Malga Di Paula, comentava que ele estava muito melhor. Segundo ela, o comediante, ainda no CTI, tinha assistido na TV a partidas de seu time, Vasco da Gama, e conseguido se sentar. Porém, no último dia 20, o seu estado piorou. Chico apresentou disfunções respiratória e renal e voltou a respirar com a ajuda de aparelhos em tempo integral.

Esta foi a terceira internação do humorista num período de menos de dois meses. No dia 30 de novembro de 2011, ele foi levado ao hospital em função de uma febre alta. Durante a internação, foi descoberta uma contaminação por fungos, tratada com antibióticos. Antes, ele havia deixado o hospital no dia 11 de novembro, depois de permanecer cinco dias no local por causa de fortes dores nas costas.

No começo do ano passado, o artista teve problemas cardiorrespiratórios e ficou no hospital por quase quatro meses. Durante os 110 dias, o humorista esteve por 78 deles num CTI, sendo que em coma induzido por 22. Chico se recuperou a tempo de comemorar seus 80 anos em casa, no dia 12 de abril de 2011.

Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho nasceu em 12 de abril de 1931, em Maranguape, no Ceará, e veio para o Rio de Janeiro, com a família, aos 7 anos. Mudou-se com a mãe e três irmãos. O pai permaneceu em sua cidade natal para tentar refazer a vida como construtor de estradas de rodagem. A família passou a viver numa pensão no bairro do Catete, abrigada em diferentes quartos.

A ideia inicial de Chico era estudar para ser advogado, mas a veia cômica e a necessidade de trabalhar mudaram seus planos. O cearense, que ainda jovem fazia imitações de personalidades, preparou um número com 32 vozes que o fez ganhar vários concursos de programas de calouros, como o "Papel carbono", de Renato Murce, e a "Hora do pato", apresentado por Jorge Cury, ambos da Rádio Nacional.

Aos 17 anos, ele fez um teste na Rádio Guanabara e ficou em segundo lugar em locução. Trabalhou em outras rádios nos anos 40 e até o começo da década de 50. Com 19 anos foi para a Rádio Clube de Pernambuco, em Recife, onde permaneceu por um ano antes de voltar para o Rio.

O ator trabalhou ainda na Rádio Clube do Brasil, até que, em 1952, retornou à Mayrink Veiga como autor e diretor de vários programas ("A Rainha canta", com Ângela Maria; "Rio de Janeiro a Janeiro"; "Buraco de Fechadura"; "Vai Levando"). Ao mesmo tempo atuou em atrações estreladas por Haroldo Barbosa, Antônio Maria e Sérgio Porto, entre outros. E fez o programa que se tornaria um dos maiores sucessos da rádio, "Escolinha do Professor Raimundo".

Com a fama no rádio, nada mais natural do que migrar para a TV. Chico levou o professor Raimundo para a extinta Tupi, onde apareceu pela primeira no vídeo no programa "Aí vem D. Isaura", de Haroldo Barbosa, estrelado por Ema D"Ávila. O personagem era um tio da protagonista que vinha do Nordeste. O ator também esteve em programas de humor como "Noites cariocas", "O riso é o limite" e "Praça da alegria".

O diretor Carlos Manga, para quem Chico Anysio já havia escrito 18 chanchadas da Atlântida, aproveitou o surgimento do videotape e propôs ao humorista gravar um programa com seus personagens. Surgia aí o "Chico Anysio show", a base dos outros programas que o comediante estrelaria na TV durante os anos seguintes. Na TV, Chico Anysio passou também pela TV Excelsior e Record, como uma das estrelas dos programas "Essa noite se improvisa" e "Vamos Simbora", com Wilson Simonal.

Ele criou mais de 200 personagens. Com o nome artístico de Chico Anysio, fez "Espetáculos Tonelux", em 1953, e "O homem e o riso", em 1964. Em 69, subiu ao palco com o "Chico Anysio só" e foi assistido por 150 mil pessoas nos oitos meses da temporada. Entre os curiosos tipos que criou, fizeram sucesso o coronel Pantaleão, Bozó, Alberto Roberto, Salomé, Painho e Justo Veríssimo.

Chico também escreveu livros de humor, como "O telefone amarelo", "O batizado da vaca", "A curva do calombo" e "É mentira, Terta", e o romance "Carapau". Ele também era pintor e compôs várias músicas, muitas delas registradas por Dolores Duran. Com Arnaud Rodrigues, formou a dupla Baianos e Novos Caetanos, e gravou um disco.

O humorista estava na TV Globo há mais de 30 anos, onde comandou "Chico City", "Chico Anysio Show", "Chico total", "O belo e as feras" e "A escolinha do professor Raimundo" (criada em 52). Também teve quadros no "Gente inocente!?" e "Zorra total". Como ator, fez participações especiais na minissérie "Engraçadinha" e no filme "Tieta". Torcedor do Vasco e do Palmeiras, na Copa do Mundo de 90, na Itália, ele engrossou o time de comentaristas da Globo.

Entre as novelas em que atuou na TV Globo estão "Feijão maravilha" (1979), "Terra Nostra" (1999), "Sinhá Moça" (2006), "Pé na Jaca" (2006), e "Caminho das Índias" (2009) - o ator fez uma participação especial na novela de Glória Perez, no papel de Namit, um diretor de filmes trambiqueiro.

No cinema, trabalhou em diversos filmes desde a década de 1950, incluindo "Tieta do Agreste" (1996), e "Se eu fosse você 2" (2008). Mais recentemente, o humorista poderia ser visto no ar no programa "Zorra total", como o personagem Bento Carneiro.




Fonte:Prof. Sandro Libra



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