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Por José Ricardo Rocha Bandeira*
Mais uma vez a sociedade acompanha de forma perplexa a noticia de um bárbaro e hediondo crime, em que oito pessoas, sendo seis jovens amigos, foram covardemente assassinados por traficantes da comunidade da Chatuba, no bairro de Mesquita, Baixada Fluminense (RJ).
Esses mortos, a partir de agora, fazem parte de mais uma triste estatística do crime e da violência no Rio de janeiro, porém são também vitimas da política de segregação racial da segurança pública no Estado.
Todos sabem que com a implantação das famosas e tão divulgadas Upps (unidades de polícia pacificadoras ) o crime esta mudando de região através do êxodo dos traficantes fugitivos das favelas da cidade que vão buscar novo domínio territorial armado em outras comunidades dos municípios vizinhos, comunidades essas que não tem projetos de Upps e nem sequer policiamento estruturado para controlar esta nova realidade urbana.
É possível que estas comunidades não tenham Upps nem policiamento estruturado pelo simples fato de não serem as futuras sedes da Copa do Mundo e das Olimpíadas, ou simplesmente por não terem poder aquisitivo ou quantidade significativas de votos, nesses importantes anos pré-eventos esportivos.
Mas como explicar essas tecnicidades e complexidades da administração pública da segurança aos familiares e amigos que perderam os seus entes queridos em mais essa chacina? Como explicar também aos moradores dessas localidades os constantes crescimentos nos índices de violência e criminalidade? Talvez a melhor resposta seja o simples silêncio ou atribuir ao acaso os fatos acontecidos.
Mesmo sem explicações e mesmo amargando a dor do silencio, é necessário que se tomem medidas para que estes fatos horríveis não voltem a acontecer com mais frequência. É necessário encarar a segurança pública como uma ciência, que de fato é, composta de estudos, planejamentos e estatísticas.
Com o advento das ocupações pirotécnicas e carnavalescas das Upps transmitidas em tempo real pelos veículos de comunicações, a sociedade pode presenciar um novo poder, quase paranormal manifestado pelos bandidos destas áreas; o poder do desaparecimento. Assim foi no complexo do alemão, onde centenas de bandidos simplesmente desapareceram e até hoje não foram localizados. Assim foi na Rocinha e também em todas as áreas ocupadas. Restando assim uma nova pergunta: para onde foram esses “mágicos” da criminalidade?
Sabemos que antes de se implantar o projeto das Upps, deveria ter sido previsto a migração destes criminosos para as comunidades das facções aliadas e simpatizantes, com um prévio fortalecimento do efetivo dos batalhões e delegacias destas comunidades, visando o não fortalecimento do crime organizado, seguido de um profundo trabalho de inteligência pós ocupação pelas Upps, identificando para quais comunidades os criminosos migraram e também traçando através da criminologia o perfil destes criminosos, prevendo assim quais crimes e delitos poderiam ser potencializados e em quais regiões, neutralizando de imediato essas ações antes mesmos que pudessem vir a acontecer .
Mas infelizmente essas ações não foram realizadas e hoje choramos mais uma tragédia social, que amanhã terá a sua pagina virada e sucumbirá a política em mais esse ano eleitoral, transformando oito pessoas, jovens trabalhadores e estudantes em algumas páginas de um inquérito ou processo arquivado e provavelmente sem solução.
*José Ricardo Rocha Bandeira é Comendador, Professor, Perito Judicial, Especialista em psicanálise e criminologia forense e Presidente do Inscrim - Instituto de Criminalística e Ciências Policiais da América Latina. Mais informações, acessar: www.inscrim.org
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