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| Você, que já decretou a falência do Brasil, está acompanhando mesmo o trabalho dos seus representantes? |
| Data Publicação:04/06/2018 |
“Estou desanimado”. “Esse país faliu”. “Precisamos acabar com essa raça de políticos”.
Quem aterrissou no Brasil nos últimos dias pode imaginar que finalmente, depois de muito esforço, atingimos um estado terminal, quase vegetativo, em que o povo resolveu arregaçar as mangas e a classe política, assustada, se trancafiou entre os ratos para queimar como charuto as últimas notas de cem reais da praça.
O próprio ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Etchegoyen, ao descartar uma intervenção militar pedida defendida por parte dos manifestantes, disse que é preciso entender as razões para pedidos como este. Usou como metáfora a piada do bêbado que perdeu a carteira num salão escuro e a procurava, em vão, ao redor de um poste iluminado.
Se entendemos bem, ele defendeu a necessidade de analisar como a situação chegou a esse estado de escuridão nas vias institucionais.
Mas para onde estamos estendendo as lanternas?
Alguns amigos com quem converso se dizem desanimados com a situação política e já aceitam naturalmente a retomada da ordem, da moral e do respeito cidadão como “funcionava antigamente”.
Para bom entendedor meia menção ao passado basta, mas três em cada três caem pra trás ao saber que o presidente símbolo da linha-dura do velho regime militar adotou a própria neta e garantiu a ela pensão vitalícia.
A lista de escândalos do regime, ao menos os que puderam ser investigados sem risco de morte ou tortura, é extensa, e saber um pouco mais delas não torna nossos dedos interessados em pesquisas na internet em infiltrados comunistas das redes, apesar da gritaria contrária.
Nessas horas de desânimo com “essa roubalheira toda”, uma boa dica é tentar saber o que os representantes eleitos pelo voto, com todos os problemas de representatividade que esse país acumula, estão fazendo neste exato momento “com o dinheiro ganho às nossas custas”.
Não é preciso pegar o avião e ir até Brasília. Basta conferir os destaques, por exemplo, no site de notícias da Câmara. É de graça.
Sem entrar no mérito dos projetos, o sujeito que já encomendou a extrema unção do país saberia que, numa hora dessas, essa “corja” toda acabava de aprovar em uma comissão mista uma medida provisória para estimular o crédito a projetos de irrigação. Um horror, não?
Em outra comissão, a preocupação dos nobres senhores era a exigência de regulamentação de níveis de flúor na água. O argumento vencedor foi que tanto o Ministério da Saúde quanto as entidades brasileiras da área odontológica recomendam a prática, inclusive a Organização Mundial da Saúde (OMS). Onde já se viu? Com tanto problema mais sério no país, os deputados gastavam as horas discutindo nossa saúde bucal e a qualidade da nossa…ÁGUA?
Outro absurdo aprovado por um grupo de deputados foi a garantia do direito do usuário de telecomunicações de rescindir o contrato de prestação do serviço, de forma presencial ou a distância, a qualquer tempo e sem ônus, em caso de prestação inadequada do serviço. Tudo garantido no contrato. Como podem?
Em outra frente, deputados encaminhavam a aprovação do fim de consulta para retorno de paciente com exame (eu ouvi alguém dizer “EU QUERO PAGAR O MEU RETORNO E NÃO ACEITO QUE ME TIREM MAIS ESSE DIREITO?”); outros aceleravam a punição para propaganda infantil abusiva e enganosa. Que nojo.
Enquanto o brasileiro dorme à espera do Carnaval, como tantos foram acusados nos surtos de civismo eufórico, houve quem tivesse a pachorra de sugerir a destinação de 20% das multas por desmatamento a projetos de educação ambiental. Fala sério.
Também andavam livre de algemas no Congresso os representantes que tentavam garantir que recursos atrasados do Fundeb, o fundo da educação básica, sejam aplicados em educação, sem desvio de finalidade; circulavam impunemente até mesmo os autores de propostas como a distribuição de livros técnicos e profissionalizantes para estudantes desses cursos.
Em meio ao caos, deputados aprovavam, vejam só, um projeto para disciplinar o tratamento de dados pessoais (quem hoje em dia ainda usa internet?) e um colegiado se reunia para debater como estender a humanização do atendimento à saúde mental através da Rede de Atenção Psicossocial, em substituição aos resilientes hospitais psiquiátricos que, muitas vezes, funcionam como centros de encarceramento.
Fonte:Yahoo.com
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