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Com a indicação de
Joaquim Levy, ex-secretário do Tesouro de Lula e até há pouco tempo
executivo do Bradesco, para a Fazenda, a presidente Dilma fica devendo
uma satisfação a quem votou nela. A nomeação para posto-chave de uma
pessoa afinada ao “mercado”, associada à alta recente de juros e o
desenho de um novo ajuste, contradiz (pelo menos no curto prazo) seu
discurso eleitoral baseado em mais empregos, mais investimentos no
social e tudo o mais.
É como se na narrativa eleitoral de Dilma na TV o capítulo do
“ajuste” (menos gastos públicos e mais sobra de dinheiro para pagar os
juros da dívida) tivesse sido omitido do projeto oferecido ao país. Como
se fosse um detalhe, digamos assim.
Não é incomum políticos fazerem o oposto do que prometeram nas
campanhas, como dissessem depois de eleitos: “campanha é campanha,
governo é governo”. Quando ganhou pela primeira vez Obama prometeu aos
eleitores fechar a prisão de Guantanamo, foco de denúncias de tortura
contra acusados de terrorismo. Como se sabe ela está lá até hoje.
Mas, seja qual for o contexto ou o país, convém dar explicações mais
contundentes ao eleitorado. Pelo menos tentar mostrar o que significa
dizer A e fazer B, ou como no longo prazo B pode favorecer A.
Preserva-se assim o discurso político ou ao menos não o descola do
projeto de país escolhido nas urnas. Nesta quinta-feira, em entrevista
coletiva em Brasília, seus novos ministros da área econômica procuraram
demonstrar que não há contradições entre o “mercado” e o “social” – mas
não foram eles que foram à TV pedir votos.
No fundo, ao colocar “a casa em ordem” (leia-se: as contas públicas),
Dilma reencena um velho filme já protagonizado antes por ela própria e
por Lula. Em 2003, quando eleito com o Brasil próximo de quebrar
(situação bem diferente da atual), Lula elevou o superávit primário (a
sobra de dinheiro para pagar os juros da dívida), tendo produzido
desemprego no início de seu governo. Dilma, em 2011, comandou corte de
gastos na ordem de 1,2% do PIB. O problema é o que acontece
depois do ajuste. Favorecido pelo bom preço de matérias-primas para
exportação, como soja e minério de ferro, Lula conseguiu estabelecer uma
agenda de aumento de renda, em especial dos mais pobres, ao mesmo tempo
em que agradou ao mercado. O petista virou “o cara”. Operou um milagre:
multiplicou o pão dos mais pobres e dos mais ricos também.
Já Dilma, independentemente de ajuste, iniciará seu segundo governo
com a crise econômica à espreita, baixos índices de crescimento e uma
casa “para arrumar”. Seria uma boa ideia se a presidente explicasse à
plateia como o “ajuste” atual levará o Brasil a ser um lugar próximo
àquilo que prometeu na TV: um país menos desigual, com menos pobreza,
mais e melhores empregos. Cortando orçamento e aumentando a previsão de
gastos com juros e encargos da dívida pública será um bom começo? Qual o
plano para depois?
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